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A única guerra que se perde é aquela que se abandona

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domingo, 15 de maio de 2016

Antônio Prata

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CRÔNICA EM EXERCÍCIO
15/05/2016, na Folha.

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"Eu preparo uma canção/ Que faça acordar os homens/ E adormecer as crianças". Lembro desses versos do Drummond ao despertar no meio da madrugada com os rojões do impeachment. Não sei se tenho medo de que o barulho acorde as crianças ou faça adormecer os homens -ainda mais. Suspeito, porém, que desta canção escrita com pólvora não se possa esperar nada de bom.

Queria falar sobre outro assunto, tentei falar sobre outro assunto, mas qualquer tema soava bizarro na moldura desses dias. (Seria como estar num terremoto, dentro de um prédio desabando e comentar com o cidadão ao lado: "Parece que pro fim da tarde vai abrir um sol"). Talvez o sono também atrapalhe: passei a noite em claro ninando as crianças e velando o país. Agora, manhã de quinta, só versos do Drummond me (s)ocorrem. "Perdi o bonde e a esperança/ Volto pálido para casa./ A rua é inútil e nenhum auto passaria sobre o meu corpo".

Enquanto trabalho, deixo a TV ligada, sem som. Vejo todos aqueles velhos políticos se refestelando ou lamentando em Brasília e, por um momento, os enxergo transformados nos desenhos do Angeli. Srs. Rusgas e Drs. Rabujas, cinzentos e com mau hálito, fugindo da ficção e invadindo a realidade. Entre as nefandas caricaturas surgem também flashes do passado. Vejo o general Figueiredo montado em seu cavalo. Vejo Brilhante Ustra montado em Bolsonaro. Vejo Jânio montado em sua vassoura. Vejo José Dirceu montado em dinheiro. Um problema na TV faz a imagem congelar por um segundo e me dou conta de que estou diante de uma versão macabra da capa do "Sgt. Pepper's", um resumo da ópera bufa de meio século. Aqui e ali, entre corruptos, corruptores, bandeirantes e capitães do mato, avisto Chacrinha, Carmem Miranda, Pelé, Silvio Santos, Zé Bonitinho, Mazzaropi e a paquita Sorvetão.

A esta altura, já delirando, entendo que Drummond não dará mais conta do recado. Preciso de tarja preta. Apelo a Augusto dos Anjos: "Vês! Ninguém assistiu ao formidável/ Enterro de tua última quimera./ Somente a ingratidão –esta pantera–/ Foi tua companheira inseparável".

Volto a olhar para a televisão e por um momento acho que minha filha mudou pro Cartoon Network. Vejo o corvo de "Spy vs. Spy" conversando com Gansolino, mas esfrego os olhos e são Temer e Kassab. A legenda anuncia os novos ministros. Aumento o volume. Ouço apenas que Alexandre de Moraes, o chefe da PM paulista, essa polícia ustra brilhante, quero dizer, ultra brilhante, que faz hora extra não remunerada com máscara ninja nas periferias da cidade, é o novo ministro da Justiça. Eu não deveria me chocar com nenhum ministério depois daquele montado por Dilma no segundo mandato, mas fazer o quê? Sou brasileiro, não desisto nunca.

"Você tá defendendo esse governo, Antonio?", me pergunta uma voz -é o Chacrinha. "Um governo que mentiu descaradamente para se eleger, quebrou o país com sua incompetência e chafurdou nas velhas práticas da política brasileira?". Não, meu caro Abelardo, não tô. Esse governo foi lamentável, mas não é porque eu não gosto do Haiti que eu sou a favor do terremoto- e enquanto o prédio desaba sou tomado por um laivo de otimismo: "Parece que pro fim da tarde vai abrir um sol", comento. "Foooooom!", buzina o Velho Guerreiro, um segundo antes de sermos engolidos pelos escombros.

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