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A única guerra que se perde é aquela que se abandona

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domingo, 10 de abril de 2016

O Astronauta :o)

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Aqui de cima vemos o mundo com outros olhos.
Vemos o mundo menor, como se ele fosse pequeno, e nos sentimos maior que ele. Você o vê de longe, pequeno e azul. Pode brincar que ele cabe nas palmas de suas mãos. É uma questão de perspectiva, e no começo isso é engraçado. Mas, quando você se lembra que ele é sua casa, a saudade aperta.
Aqui a vida é difícil. É dura. Se você não tiver uma cabeça boa você pode enlouquecer. Fora de nossa estação, tudo o que se vê é o espaço, ora claro, ora escuro. Incontáveis vezes. No início é fabuloso, mas depois seus olhos só querem descansar na foto de um jardim que temos em uma de nossas paredes. É a única cor que temos aqui. Esse verde artificial. Na Terra temos verde em qualquer lugar que olhemos. A natureza nos abraça, até mesmo nos grandes centros urbanos. Desde grandes árvores até pequenas plantas, ela sempre está ali. Um refúgio para seus olhos fugirem do cinza duro como concreto.


O ar daqui é ruim. Artificial. Você esquece, mas lembra com frequência que está enclausurado em uma estrutura metálica, como um peixe em um aquário, e, como o peixe, você não pode sobreviver fora do seu habitat simulado. Aqui dentro temos oxigênio, lá fora não. No início isso dá medo, mas logo se acostuma. Na Terra o ar lhe envolve, lhe dando todo o oxigênio que seus pulmões conseguirem absorver. Você pode caminhar, correr, até mesmo escalar uma montanha, e sua fonte de vida estará lá, à sua volta, preenchendo seus pulmões. Alimentando você e lhe mantendo vivo. Aqui, até o sol é diferente.
Temos pouca companhia por aqui. Você divide seu quarto com outros três tripulantes, e eles são todas as pessoas com quem você terá contato pelo resto do tempo que passar aqui. Eles serão suas únicas companhias para o trabalho, para as refeições, e para qualquer outra coisa, além de trabalhar, comer e dormir, que você possa inventar de fazer aqui. Na Terra, você tem pessoas ao seu redor o dia todo, onde quer que você vá. Elas estão lá, completando seu dia. Você anda pelas ruas e não vê nenhum rosto repetido. Aqui vejo apenas três.
Que saudade do meu planeta.
Mas, se paro para pensar melhor, vejo que não é bem assim.
O planeta, visto daqui, é praticamente azul. Quando eu estava com meus pés nele, ele era verde. Ao menos era para ser. Nossa espécie vem destruindo-o há gerações. Trocando o verde por cinza, a grama por concreto e asfalto. Provavelmente o jardim dessa foto já nem existe mais. Estamos matando nosso planeta aos poucos. Nosso planeta. Soa até arrogante. Ele já estava aqui quando chegamos, e continuará depois que partirmos. Nossa espécie é apenas um grão de areia na imensidão do tempo e do espaço, mas não perdemos tempo em deixar na Terra a nossa marca. Pode ter certeza, ela se apagará um dia.
Não bastasse termos devastado, digo, estarmos devastando nosso planeta com nossa ganância, ainda estamos sacrificando nossa atmosfera para sustentar nosso padrão de vida. Ao passo que aqui temos oxigênio demais, limpo demais, na Terra temos o ar frequentemente sujo. Poluído. Tóxico. Uma atmosfera que está se deteriorando, distribuindo alterações climáticas ao redor do mundo. A camada de ozônio, um assunto tão falado há algumas décadas, e que ninguém nem sabe mais o que é nos dias de hoje, filtra, cada vez menos, a radiação ultravioleta do sol, que, consequentemente, chega até nós com mais intensidade. Sabe, acho que mudei de ideia. Prefiro o sol visto daqui de cima.
Na Terra, as pessoas são egoístas, preconceituosas, gananciosas e mesquinhas. Sempre querendo ser melhores que as outras. Sempre querendo se dar bem, em cima de seja lá quem for. Julgam seus semelhantes pela cor da pele, pela idade, até mesmo pelo seu sexo ou orientação sexual. Que banal. Aqui trabalhamos todos juntos, e isso tem que ser assim. Ninguém sobrevive sozinho no espaço. Aqui não somos negros ou brancos, velhos ou jovens, mulheres ou homens, homossexuais ou heterossexuais. Somos apenas quatro indivíduos trabalhando juntos. Sobrevivendo juntos. Do que eu precisar, a pessoa ao meu lado me ajudará, e do que ela precisar, eu a ajudarei. Pensando assim, acho que me sinto menos sozinho aqui do que na Terra.
Pois é. Talvez eu esteja melhor aqui.
(Pedro Cordeiro)

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