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A única guerra que se perde é aquela que se abandona

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segunda-feira, 14 de março de 2016

CARTA AOS MEUS AMIGOS PETISTAS

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POR
MARCEU VIEIRA

(MARCEU VIEIRA É JORNALISTA, COMPOSITOR, FICCIONISTA E CRONISTA DO COTIDIANO,INICIOU-SE NO JORNALISMO NA EXTINTA "TRIBUNA DA IMPRENSA" E SEGUIU NA PROFISSÃO, SEMPRE REPÓRTER EM TEMPO INTEGRAL, NAS REDAÇÕES DE "O NACIONAL", "VEJA", "O DIA", "JORNAL DO BRASIL", "ÉPOCA" E "O GLOBO". 
HOJE É UM JORNALISTA INDEPENDENTE.")
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O pedido de prisão preventiva do Lula pelo Ministério Público de São Paulo não chateia quem nele votou apenas pela constatação incômoda de que, em mais de cinco séculos de Brasil, seja por motivação política ou rendição econômica, os rigores da lei, nesta terra, continuam seletivos.
Desde Caramuru, o náufrago português que se encantou pela índia Paraguaçu ao dar numa praia de Salvador em 1509 ou 1510, esses rigores funcionam pra uns “assim”, e pra outros, “assado”.
Também não entristece apenas por dar mais uma martelada no prego da certeza geral de que, em algum momento da sua ascensão tão bonita, o PT se rendeu a essa mesma lógica e passou a reproduzir, no poder, os rituais de antigos inimigos – e, talvez por ter se deixado seduzir pelos encantos de certos barões do poder econômico, o partido, ou gente dele, tenha dado chance a tudo isso que ocorre agora.
Apeado de seu passado tão belo, o Partido dos Trabalhadores, aquele partido puro do broche de estrelinha no peito que tanto orgulho dava a seus militantes, aquele do “olê, olê, olê, olá!”, aquele PT teria cedido, segundo a Lava-Jato, a favores de empreiteiros milionários e famélicos da dinheirama proporcionada por obras públicas.
O pedido de prisão preventiva do Lula não aborrece, enfim, apenas pela disseminação do pensamento de que o ex-presidente teria cometido um crime, nem só pela desigualdade do rigor de alguns senhores da lei, tão cartesianos com uns, tão camaradas com outros.
O gesto do MP paulista entristece, sobretudo, pela tentativa de assassinato de um sonho.
Pelo menos, no caso deste cronista das coisas banais e mero observador dos gestos humanos.
Quando Lula ganhou sua primeira eleição pra presidente, em 2002, saí tarde da noite do trabalho e fui me juntar a amigos petistas no carnaval da comemoração no Bip Bip, o botequim de Copacabana onde eu gostaria de estar na hora do fim do mundo.
Estava ali não como o petista que nunca fui, mas como o sujeito comum que jamais vai votar na direita e anda com seus pés por aí e é dono do seu voto e do seu nariz e do seu discernimento.
De uma forma menos rasa de olhar as coisas e seus possíveis desdobramentos, não escolhi o Lula em 2002. Escolhi o sonho que ele representava – como definiu tão bem minha amiga querida Débora Thomé nas redes sociais, falando de si mesma, nesta quinta-feira 10 de março de 2016, dia em que o Ministério Público de São Paulo divulgou seu pedido de prisão preventiva, e o Brasil assistiu a mais um capítulo do colapso, do debacle, do desastre e da tentativa de desconstrução do PT.
Naquele 27 de outubro de 2002, votei na crença de um país diferente; um sem 
criança abandonada na rua; um onde negros e brancos fossem olhados igual; um país em que transexuais fossem considerados gente e não aberrações; uma nação sem pessoas com fome e com hospital bom pra todo mundo.
Não votei num cara barbudo dotado de voz rouca e enorme carisma, apesar de sua formação cultural e política precária, com passado de pensamento alienado ou conservador, como ele mesmo admitiu algumas vezes.
Naquele 27 de outubro de 2002, a música foi mecânica no Bip Bip. Não havia músico disposto a tocar, apesar de haver muitos ali, no pequeno bar de 18 metros quadrados do meu amigo-pai-irmão Alfredo Melo, o Alfredinho. Todos só queríamos nos divertir e comemorar. Era justo.
Foi um dia tão mágico. Adalgisa devia vagar por outro bairro, ainda sem saber que eu existia. O mar de Copacabana cuspia na areia o sal dos corpos que haviam lotado a praia horas antes. E a madrugada chegava e anunciava que a esperança, sim, a esperança, quem se lembra?, havia vencido o medo.
Abraçado ao meu amigo Cid Benjamin, o ex-guerrilheiro que, com um punhado de outros porra-loucas, tinha sequestrado o então embaixador americano Charles Burke Elbrick, em 1969, arriscando sua juventude e sua vida em troca da liberdade de 15 presos políticos – um deles, José Dirceu -, eu disse a ele, emocionado e enlevado pelos vapores da cerveja:
– Vocês são heróis do Brasil. A gente deve este momento a vocês.
Eu me dirigia também ao César Benjamin, irmão do Cid, outro ex-guerrilheiro, ali presente. Nem sei se eles recordam. Eu lembro como se fosse hoje.
Catorze anos e três eleições depois, Zé Dirceu está novamente na cadeia, agora não mais pelas razões nobres de 1969, e o Ministério Público paulista, tão contaminado pelos sentimentos e pelos desfavores da política mesquinha, pede que se faça o mesmo com Lula.
A intenção de muita gente nessa investigação da Lava-Jato, talvez não a de todos, mas a de muitos, por mais razões que o PT lhes tenha dado, o objetivo desses parece ser o aniquilamento do Lula e de seu partido.
(Que o Lula e o PT se entendam com a lei – mas que a lei também sopre forte assim pros lados dos algozes do Brasil camuflados no PSDB e no PMDB e no PP e em todos os Pês, e que os jornalões e telejornalões e revistões noticiem isso com a mesma ênfase).
Mas o que esses não devem conseguir – ninguém deve – é aniquilar o sonho de país que moveu tanta gente (esqueçam os petistas) a votar no Lula em 2002. Este sonho continua íntegro, inteiro, vivo, como disse minha amiga Débora Thomé nas redes sociais em seu emocionado e emocionante depoimento que transcrevo aqui:
“Nesses 14 anos, não teve um dia em que eu tenha me arrependido da minha opção. Porque na nossa democracia não é escolher a/o presidente que se deseja, é escolher entre as/os que te oferecem. Dentre as opções, foi a minha nas últimas quatro eleições. Não que eu não tenha condenado o mensalão, não que eu não tenha rejeitado quando ele fretou um avião para levar os amigos dos filhos (os tais filhos) para passar férias em Brasília. E não acho a corrupção um mal menor. O que vamos acompanhando hoje me dói, me dói muito. Ver a loucura, a loucura que corrompeu tanta gente de história boa do PT. Isso me faz chorar, me faz triste.
(…)
Não tenho nenhuma força ou argumento para defender o Lula ou as práticas de alguns petistas, tampouco para alguns erros graves do atual governo, mas aquele projeto que a gente celebrou lá atrás ainda é o dos meus sonhos e, mais que isso, estou certa de que ele pode ser o da nossa prática.
Como faz? Eu não tenho a menor ideia, mas vou tentando.”
Vamos.

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